Cinema brasileiro: dos primórdios aos dias de hoje

O Dia do Cinema Brasileiro é celebrado em 19 de junho e aproveitamos a data para fazer uma viagem pela história do cinema nacional. Para nos ajudar nessa missão, resgatamos a segunda temporada do Cinematógrafo, que buscou compreender melhor essa cronologia histórica e momentos marcantes da sétima arte no país. Ao longo de treze episódios, o apresentador Fernando Tibúrcio conversou com o crítico de cinema do jornal Hoje em Dia, Paulo Henrique Silva, e com o pesquisador Marcelo Miranda.

EM BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO PARA O CINEMA BRASILEIRO

O que é o cinema brasileiro? Essa é uma pergunta que até hoje é levantada por cineastas e especialistas da área. Marcelo Miranda, pesquisador, diz ser impossível delimitar o que é o cinema brasileiro, apresentando a possibilidade de se falar de alguns cinemas brasileiros. Paulo Henrique Silva, crítico de cinema, destaca que o cinema brasileiro é marcado por um conflito entre a realização de um modelo autoral, voltado às preocupações sócio-econômicas brasileiras, e o modelo americano, com seus gêneros e processos.

Um aspecto comum ao longo da história do cinema brasileiro, que está na verdade fora dos filmes, é o subdesenvolvimento, a condição de cinema periférico, feito fora dos grandes centros cinematográficos do mundo. Um cinema do terceiro mundo, como definido pelos cineastas Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. A tentativa de vencer essa condição de subdesenvolvimento faz do cinema brasileiro múltiplo, plural e constantemente em crise. Hoje a produção é equilibrada entre a artesanal, presente principalmente em festivais de cinema, e a industrial, voltada para o público de shopping, onde estão os cinemas, com comédias, filmes de ação.

Em seu Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade ressalta a assimilação de outras culturas, sem copiá-las, como uma condição da cultura brasileira. Essa antropofagia também está presente no cinema brasileiro? Paulo Henrique Silva destaca a utilização de elementos de outras culturas, como a norte-americana, para fazer uma brincadeira ou uma paródia. Além disso, a presença de imigrantes sempre esteve presente no cinema nacional, desde as suas origens.

OS PRIMÓRDIOS DO CINEMA BRASILEIRO

O cinema surgiu em 1895 e no Brasil ele chegou muito pouco tempo depois. A primeira exibição em terras tupiniquins aconteceu em 8 de julho de 1896, mas não com um filme brasileiro. “Vista da Baia de Guanabara“, considerado por muitos o primeiro filme nacional, foi realizado em 1898 por um italiano, Afonso Segreto. Não há registros da obra.

“É curioso pensar que o cinema brasileiro tem suas primeiras imagens por um estrangeiro, no mar. Então é um cinema que já nasce um pouco fora do seu próprio lugar físico, está sempre à deriva desde o nascimento.” Marcelo Miranda, pesquisador.

Inicialmente, a tradição era de filmes de retrato, que mostrassem o cotidiano e momentos de figuras de classe alta no Brasil. Além disso, no começo do século 20, destaca-se uma tradição singular do cinema brasileiro: os filmes inspirados no noticiário criminal, que envolvessem violência. A produção cinematográfica começou concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo e então ela começou a se espalhar para o interior de Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Quando se fala em cinema brasileiro, especialmente nos seus primórdios, um nome se destaca: Humberto Mauro. Ele foi um dos pioneiros do nosso cinema e realizou filmes de 1925 até 1974, sempre com temas bem brasileiros. O cineasta mineiro foi responsável por tornar a cidade de Cataguases, em Minas Gerais, em um pólo audiovisual. Na década de 20, Humberto Mauro tem os seus primeiros contatos com as ferramentas de produção de imagem de som e, anos mais tarde, já no Rio de Janeiro, realizou mais de 300 produções, principalmente documentários.

“O Glauber, o Cinema Novo, devem muito ao Humberto Mauro, que seria o primeiro a realmente ter essa preocupação com as coisas da terra brasilis.” Paulo Henrique Silva, crítico de cinema.

A INDÚSTRIA DO CINEMA BRASILEIRO

Tentando realizar algo próximo do que Hollywood fazia nos Estados Unidos, o cinema brasileiro começou a se industrializar. A ideia era realizar uma produção constante que se aproximava muito
da estética norte americana de cinema e ainda formar um star system, um sistema de contratos exclusivos e de longo prazo assinados por atores com um determinado estúdio. São os tempos da Cinédia, da Vera Cruz e da Atlântida, a partir do início dos anos 20. Grande Otelo e Oscarito, figuras que tiveram uma grande penetração popular e fizeram muito sucesso na época, geraram um cinema industrial e continuado, que é quando um filme gera lucro para outro filme ser feito e por aí vai. No início da década de 50, o cinema brasileiro tem seu primeiro sucesso internacional, O Cangaceiro, de Lima Barreto, que devido à desvalorização do cinema produzido aqui, na época foi vendido por um baixo valor para a Columbia Pictures.

Ao falar desse período industrial do cinema brasileiro, é inevitável não passar por um artista que praticamente sozinho se tornou uma indústria e se consolidou como um fenômeno cômico: Amácio Mazzaropi, o eterno Jeca Tatu. Ele tinha total controle de suas produções, ficou milionário e se desvinculou do cinema brasileiro como um todo.

mazzaropi_cinemabrasileiro

CHANCHADA E PORNOCHANCHADA

A chanchada é conhecida como um dos únicos gêneros cinematográficos genuinamente brasileiros e lotou as salas nacionais entre as décadas de 1930 e 1960, transformando Grande Otelo e Oscarito em mitos do cinema brasileiro. Ela é caracterizada por um humor escrachado, paródico, debochado e sarcástico. Os filmes exploravam o olhar de país subdesenvolvido para o estrangeiro e também brincavam com os gêneros do cinema.

“Os filmes [da chanchada] se caracterizaram muito por um humor que beirava o inocente, mas que na verdade era muito crítico.” Marcelo Miranda

Grande Otelo e Oscarito

No final dos anos 1960, um tipo de filme questionava os bons costumes e além disso explorava o erotismo. É a pornochanchada, que misturava a malandragem carioca com um erotismo paulista, para criar um cinema cheio de malícia e bom humor. A dobradinha comédia e sexo pautou a “Boca do Lixo”, uma região de São Paulo, na rua do Triunfo, que nos anos 70 se tornou um pólo de produção de cinema independente. A pornochanchada explorava o erotismo, e não a pornografia, que surgiu depois.

CINEMA NOVO

Do sertão nordestino ao caos urbano, o Cinema Novo foi um movimento que procurou representar o Brasil em sua totalidade, envolvendo nomes como Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade, influenciados por movimentos como o neorrealismo italiano. Esse cinema surgiu no começo dos anos 60 e dotado de um tom político, constantemente representava a dificuldade do trabalhador brasileiro sobreviver na cidade. Seu ápice é com a obra “O Deus e o Sol na Terra do Diabo” (1963), do baiano Glauber Rocha, um dos grandes nomes não apenas do Cinema Novo, mas de todo o cinema brasileiro.

“A ideia da câmera na mão e uma ideia na cabeça era que qualquer um era plenamente capaz de expressar artisticamente a sua condição de subdesenvolvido, com muito pouco.” Marcelo Miranda

Deus e o diabo na terra do sol

CINEMA MARGINAL

Movimento cinematográfico brasileiro do final dos anos 60, o Cinema Marginal se identificava como contracultura, utilizando-se da chamada estética do lixo e do grotesco. O projeto abrigou nomes como Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias e Júlio Bressane e seguiu um sotaque meio experimental e independente, que parecia estar se tornando uma assinatura do cinema brasileiro.

Cinema marginal

PRODUÇÃO INFANTIL

Como é a produção infantil no audiovisual brasileiro? Muitas adaptações literárias e muitas produções que migraram da televisão para a tela do cinema. Saci, Os Trapalhões, Xuxa, TV Colosso, Tainá, Turma da Mônica. Com mais de cem anos, as animações brasileiras tiveram altos e baixos e vêm se consolidando, vivendo hoje sua fase áurea, ganhando premiações mundo afora. Um dos destaques recentes é “O Menino e o Mundo“, de 2013, indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação.

Xuxa cinema

EMBRAFILME E O FIM DO CINEMA BRASILEIRO

O cinema brasileiro esteve por um bom tempo sob a influência da Embrafilme, uma produtora e distribuidora de filmes nacionais criada em 1969. Ela co-produziu filmes como “Mar de rosas”, de Ana Carolina, “A idade da terra”, de Glauber Rocha, e “Cabra marcado pra morrer”, de Eduardo Coutinho, e foi considerada a mais importante empresa pública de cinema da América Latina. Durante a década de 70 e 80 foi responsável por um aumento significativo da produção audiovisual nacional, contribuindo para que em 1980 o público do cinema brasileiro chegasse a ocupar 35% do mercado. “Dona Flor e Seus Dois Maridos“, em 1976, alcançou uma audiência de 11 milhões de pessoas, número que só seria superado em 2010 pelo filme “Tropa de Elite 2″.

Muito importante para o cinema brasileiro, a Embrafilme também foi muito criticada. No final dos anos 80, uma campanha muito forte contra a empresa a acusava de desperdício e má administração, dentre outras coisas.

Dona Flor e seus Dois Maridos

O governo de Fernando Collor, em nome da austeridade de gastos, fechou a Embrafilme em 1990. A lei nº 8.029, Art. 4º, de 12 de abril de 1990, autorizou o Poder Executivo a dissolver ou privatizar diversas entidades da Administração Pública Federal, entre elas a Embrafilme. Sem investimentos públicos, o cinema brasileiro praticamente acabou. Mas o cinema brasileiro sempre foi um cinema de resistência e, mesmo com as dificuldades, ele ainda buscava meios de existir, frente a essa crise de produção.

A RETOMADA E O CINEMA BRASILEIRO DE HOJE, AMANHÃ E SEMPRE

Após o impeachment de Fernando Collor, Itamar Franco assumiu a Presidência e trouxe de volta o Ministério da Cultura e criou a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, que criou a Lei do Audiovisual. Esse momento do cinema nacional ficou conhecido como a “Retomada“, que abrange uma diversidade de gêneros. Apesar da diversidade, alguns elementos são comuns em alguns filmes, como o elemento estrangeiro evidente em “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil“, dirigido por Carla Camurati, marco dessa retomada, além de “O Quatrilho”.

Aos poucos os filmes voltaram a ser produzidos e, em 1998, “Central do Brasil“, de Walter Salles, ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e se tornou o primeiro grande filme brasileiro de destaque internacional pós-retomada. Essa retomada chega ao fim em 2002, com o sucesso internacional de “Cidade de Deus“, filme de Fernando Meirelles que conquistou vários prêmios internacionais e foi indicado a quatro estatuetas no Oscar (melhor roteiro adaptado, montagem, fotografia e direção).

Cinema Brasileiro

Depois da chamada “Retomada”, o cinema nacional continua sua jornada de resistência, com o aumento do setor audiovisual e a diversificação da produção, com filmes brasileiros para todos os estilos e todos os gostos. Afinal, qual o cenário do cinema contemporâneo brasileiro? Marcelo Miranda aponta que o cinema brasileiro de hoje não mudou tanto e ainda busca uma identidade, com uma herança de subdesenvolvimento, e com um circuito claramente dividido em: cinema comercial, com grandes produções que ocupam salas de cinema; um cinema de médio porte, que tem espaço em festivais mas dificuldades em ocupar salas; e um cinema de baixo orçamento, uma tentativa de expressividade artística, que não ocupa salas. As salas de exibição não têm mais o mesmo papel de antigamente, e as produções devem buscar novos meios de se mostrar. Paulo Henrique Silva aponta a influência de mudanças políticas no cinema brasileiro.

Cinema Brasileiro hoje e sempre

O MELHOR FILME BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS

Já vimos que a cinematografia brasileira é diversa e complexa, mas será que é possível determinar qual é o melhor filme brasileiro de todos os tempos? Se não existe uma única opção, certamente, há alguns preferidos.

Recentemente a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) escolheu “Limite” como o melhor filme brasileiro, o que é revelador sobre o nosso cinema. O filme é um drama experimental e silencioso realizado por Mário Peixoto em 1931, mas que muitos especialistas ainda consideram de vanguarda. A sua influência é incontestável, mas seria ele realmente o melhor filme brasileiro de todos os tempos?

Cinematógrafo - cinema brasileiro

       

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